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Guerra das Malvinas – a história continua viva

Ninguém vai a Buenos Aires e não conhece a Casa Rosada, certo? Pois bem, chego à sede do Governo e vejo, a uns 50 metros à frente, uma extensa grade preta, pichada com palavras de ordem, como “aborto legal já”, “desde 2001, a quem essas grades protegem?”, dentre outras, impondo um limite que dividia a Plaza de Mayo em duas: Casa Rosada à frente, manifestantes para trás. Parados na lateral, dois policiais olham o movimento. Me aproximo deles e pergunto o porquê daquelas grades. Me respondem que são para a proteção da Casa Rosada, contra as manifestações.

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Casa Rosada: alvo de protestos

 

Buenos Aires, por ser a capital do país e lugar onde está a sede do Governo, facilita a organização de protestos e se torna o olho do furacão.  Em 15 dias na cidade, posso afirmar que em sete deles vi várias manifestações, protestos por diferentes causas, com mais ou menos gente, mas sempre ali. Certa vez, estava no metrô em mais um dia de Buenos Aires, quando de repente uma voz ecoa na estação e todos começam a sair dos vagões. Não entendi bem o que se passava, segui o fluxo, e quando subi as escadarias de acesso à rua, me deparei com um mar de homens, caminhoneiros, protestando por melhores condições de trabalho.

Tomaram toda a Avenida de Mayo com suas enormes bandeiras e faixas, além de muito batuque. Comecei a tirar fotos, alguns homens até posaram com suas bandeiras, quando uma mulher se aproximou de mim e disse ironicamente: “eles já estão com a vida ganha, por isso devem estar aí, né?”. Também não foi raro ver os letreiros que informavam sobre o tráfego, indicando manifestações em algum ponto da cidade.

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Manifestação dos caminhoneiros

 

Depois de conversar com os policiais da Rosada, continuei andando, e mais faixas de protestos apareciam. Nas faixas, frases como “As Malvinas foram, são e sempre serão argentinas”, “O sangue derramado jamais será negociado” e “Inclusão e justiça para nós também”, indicavam palavras de um protesto específico, o da Guerra das Malvinas. Atrás destas faixas, um barracão, rodeado por homens, me chamou atenção. Fui até lá e perguntei o que faziam ali. “Não somos reconhecidos pelo Governo”, disse um deles. “Inicialmente as leis estavam incluindo a todos os veteranos e cidadãos que participaram do conflito do Atlântico Sul. Depois, por questões político-militares fizeram um pacto de teatro operações e nos deixaram fora, e todas as pessoas que estão aqui fizeram parte do conflito do Atlântico Sul. Ali na frente tem um cemitério simbólico que representa os mortos que lutaram pelas Malvinas e que também não foram reconhecidos”, completou, me mostrando as cruzes fincadas na grama da praça. O outro homem, que estava ao lado, disse que estão ali há seis anos realizando negociações com os governos, sem obter nada concreto até hoje. Perguntei pelo o que reivindicavam, e os dois me responderam: “queremos o reconhecimento moral e histórico pelo que fizemos”.

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Acampamento TOAS Plaza de Mayo

Para entender melhor do que falam estes homens precisamos entender o que foi a Guerra das Malvinas. 1982. O país vivia uma ditadura no regime do general Leopoldo Galtiere. Historiadores alegam que, como o país passava por uma crise no regime, Galtiere mandou as tropas tomarem as Malvinas em uma ação estratégica de “avivar” seu governo e fazer brotar no povo o sentimento de pátria. Assim foi feito. No dia 2 de abril daquele ano, tropas argentinas invadiram o arquipélago, em uma tentativa de retomada do que o país dizia ser seu por direito, já que ao se tornar independente da Espanha, em 1822, se apossaria de toda a extensão histórica colonizadora. Em contrapartida, os britânicos afirmam dominar a ilha desde 1833, quando colonizaram as Malvinas.

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Cemitério simbólico ex-combatentes da Guerra das Malvinas

 

Na Inglaterra, a primeira-ministra Margareth Thacher, para conter uma crise de popularidade por que estava passando, se aproveitou da situação e reagiu às tropas argentinas com tudo. Nossos vizinhos contavam com 10 mil soldados e 40 navios, enquanto que os britânicos tinham 28 mil soldados e 100 navios para o combate. O conflito durou 75 dias e adivinha quem se deu menos pior (em se tratando de guerra não da pra dizer que alguém se deu bem)? Saldo final: Argentina, 750 mortos; Inglaterra, 256 mortos. Dentre os sobreviventes do conflito estavamaqueles homens que encontrei acampados em frente da Casa Rosada. Me convidaram a entrar no acampamento e conversar com o responsável pelo TOAS – Teatro de Operaciones de Atlantico Sur, nome do local. Assim o fiz.

Luis Giannini me recebeu perguntando, “periodista brasileña?” – o sotaque não nega. Conversamos no que pode ser chamado de “sala de estar” do acampamento, onde havia um sofá velho, uma mesa ocupada por quatro homens jogando baralho e fotos que representam o conflito, espalhadas nas “paredes” daquela lona preta envolvendo todos nós. Luis conta que o que foi falado no país, depois da guerra, não incluía ele e os outros homens que estavam nas bases argentinas do continente, na região da Patagônia, ou seja, as pessoas sabiam do conflito e dos soldados que atuaram nas Malvinas, mas existiram aqueles que estavam em terra, de onde saíam e voltavam os aviões para ataque, e estes, de acordo com Luis, foram esquecidos. “Aqui se fala nada mais que a guerra das Malvinas, e o conflito, foi um conflito do Atlântico Sul pelas Malvinas, um conflito armado pelas ilhas, então não se pode beneficiar apenas um grupo, quando na verdade éramos todos soldados iguais. Os benefícios foram para os que estavam atuando nas Malvinas, nada mais”, disse.

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Luis Giannini, responsável pelo TOAS

 

O TOAS é composto por 400 homens que, há 31 anos, desde que a guerra acabou, tentam negociar com o governos sua inclusão na lei de pensão e direitos básicos como educação, moradia e saúde. Luis conta que as marcas que uma guerra deixa são difíceis de serem suportadas. Muitos soldados se suicidaram, outros acabaram nas drogas e no alcoolismo. “Nos deixaram  jogados, nos deixaram esquecidos e ninguém se importava. Terminou a guerra, uma guerra perdida e ficamos sem trabalho, não tínhamos mais esse lugar, o lugar que havíamos deixado com 18, 19 anos. Um povo que se despediu te glorificando, quando volta já não está, sente vergonha de você”, afirmou.

 

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Ex-combatentes de guerra jogando baralho na “sala de estar”

 

O ex-combatente disse que depois de tantas idas e vindas com os legisladores, que prometiam que iriam incluí-los na lei, mas só prometiam, decidiram fixar a bandeira na Plaza de Mayo, e conscientizar o povo sobre essa parte da história. Em seis anos de acampamento, Luis contou que conquistaram apoio de diversas entidades ligadas aos direitos humanos, dentre elas, a Liga Pelos Direitos do Homem, organização francesa, sem fins lucrativos, que faz parte da Federação Internacional dos Direitos Humanos. Além disso, ficam no local sete dias por semana, em um esquema de revezamento. Fora a sala de estar que mencionei no início da matéria, o acampamento tem também cozinha e um quarto com dois colchões.

O ex-combatente disse que depois de tantas idas e vindas com os legisladores, que prometiam que iriam incluí-los na lei, mas só prometiam, decidiram fixar a bandeira na Plaza de Mayo, e conscientizar o povo sobre essa parte da história. Em seis anos de acampamento, Luis contou que conquistaram apoio de diversas entidades ligadas aos direitos humanos, dentre elas, a Liga Pelos Direitos do Homem, organização francesa, sem fins lucrativos, que faz parte da Federação InternaIMG_0550cional dos Direitos Humanos. Além disso, ficam no local sete dias por semana, em um esquema de revezamento. Fora a sala de estar que mencionei no início da matéria, o acampamento tem também cozinha e um quarto com dois colchões.

Luis disse que quando iniciaram a busca por seus direitos, na década de 90, o governo de Carlos Menem não os levou em consideração, “até que o governo de (Gustavo) Kirchner, pela primeira vez, se preocupa com os veteranos de guerra. Pela primeira vez nos leva a sério e faz o que tem que fazer que é assistir, e dar as necessidades básicas: a saúde, (psicólogo, psiquiatra), o que fosse necessário”, disse Luis.  “Malvinas é um tema tabu. Este governo foi o único que olhou para os veteranos de guerra, não teve outro. Nós estamos trabalhando este problema que vem desde os anos 90”, completou.

Em 31 anos de “esquecimento” pergunto a Luis se ele tem esperança deste problema estar perto do fim. “Espero que sim, rezo para que sim. O que tínhamos que ter feito já fizemos. Eu creio que esse governo tem a possibilidade de reparar o erro que se cometeu contra nós”, disse. E a mídia local, os jornais… Estes não falam sobre vocês?, pergunto. “Os jornais aqui… isso não vende. Os jornais falam só quando fazemos manifestação e tem confronto com a polícia, aí chegam os jornalistas, aparecemos na televisão, em todo lado, e acaba aí. E a maioria dos jornalistas tem a documentação que apresentamos para o governo, mas nenhum investigou. E eu te pergunto: qual é a sua função como jornalista, não é investigar?”

O conflito das Malvinas, até hoje, dá o que falar entre Argentina e Inglaterra. No ano passado, quando a guerra completou 30 anos, Cristina Kirchner participou da reunião anual do Comitê de Descolonização da ONU, para reivindicar a soberania da Argentina sobre as Malvinas. Já o primeiro-ministro do Reino Unido, David Cameron, rejeitou qualquer negociação sobre a soberania das ilhas, ainda mais depois da descoberta de reservas de petróleo no arquipélago.

Em março de 2013, foi realizado um referendo onde os cidadãos das Malvinas tinham de responder “sim” ou “não” à pergunta: “Você deseja que as Falklands (como a ilha é chamada na Grã-Bretanha) continuem com seu status de território britânico de ultramar?”. Com apenas 3 votos contrários, os moradores optaram de forma quase unânime pelo Reino Unido.

No vídeo abaixo Luís Giannini fala mais sobre o conflito. Confira:

 

 

 

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