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Buenos Aires Gay Friendly

Em minha passagem pela capital argentina notava sempre que muitos homens quando iam se cumprimentar não apenas apertavam as mãos, ou davam tapinhas nas costas do amigo, como acontece aqui no Brasil. Lá, assim como as mulheres, eles também se abraçam e se beijam no rosto. O fato me chamou atenção por eu vir de uma sociedade em que isso não acontece com frequência nas ruas, nem mesmo das grandes cidades, o que talvez explique um pouco por que os hermanos estão a nossa frente quando o assunto é igualdade de gênero.

 

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Debatedores dizem que a cidade começou a se tornar gay friendly após a Lei que colocou a Argentina como o primeiro país da América Latina a permitir o casamento gay, em 2010. De lá pra cá, o turismo LGBTTTs – Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis, Transexuais, Transgêneros e simpatizantes – só cresce. Existem diversos guias voltados para esse turismo na internet, com restaurantes, baladas, hotéis, entre outros, e que também são distribuídos embairros considerados gay friendly da capital argentina. Além disso, casais de turistas que quiserem se casar na cidade estão autorizados. A única exigência é que fiquem no mínimo cinco dias em Buenos Aires.

O termo gay friendly, aliás, remete a pessoas, lugares, instituições etc, que são abertas e receptivas ao público gay, incluindo a comunidade LGBTTTs, e que pregam a paz e a igualdade no tratamento entre heterossexuais e essas comunidades. Muitos lugares listados nos guias para o público gay, na verdade, são frequentados pelo publico hétero, e é justamente isso que faz com que a cidade seja considerada gay friendly, quando não separa os públicos.

Robson Moreira é um dos brasileiros que conheci que está de mudança para Buenos Aires. O principal motivo é fazer o curso de Medicina, mas diz que o fato de a cidade ser gay friendly contou muito. Paulistano e homossexual, sabe bem o preconceito que vivem os gays na capital paulista todos os dias, apesar da intolerância estar diminuindo. “Você ainda corre alguns riscos se quiser se expressar publicamente com carinho ou coisas que qualquer outro ser humano faz, como ser colocado pra fora de algum estabelecimento ou sofrer agressões”, diz.

Como alguém que não viveu a liberdade de ser quem é de fato, Robson espera que a cidade o ajude a desconstruir o medo e cuidado excessivo que tem com sua imagem. “Os primeiros momentos vão ser meio estranhos, mas eu quero muito desconstruir isso e me expressar, e andar de mão dada em um lugar público…porque isso é uma coisa que falta pra mim, uma coisa que eu não vivi”, afirma.

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Robson: desconstruindo tabus, construindo uma vida nova

 

O brasileiro Dario Katalano, se mudou para La Plata, cidade que fica a 50 km da capital, para estudar Farmácia. Conheceu o argentino Martín Lagos em uma balada gay de Buenos Aires e vivem juntos há um ano e meio. Dario conta que sua inclusão na família de Martín se deu naturalmente e que as famílias argentinas estão muito à vontade com o tema LGBT.

Dario diz ainda que nunca sofreu preconceito na Argentina e afirma que ser gay nesse país e ser gay no Brasil tem muita diferença. “Preconceito creio que sempre vai existir, mas aqui na Argentina vejo que os gays são mais aceitos como parte integrante da sociedade e não excluídos e humilhados como no Brasil. Passei por muito preconceito no Brasil. Vivi em João Pessoa e tive que sair da cidade por não aguentar e ver como as pessoas tratam os gays de forma pejorativa e humilhante”, disse.

Martín disse que, ao revelar sua homossexualidade, a reação de sua família foi de surpresa, levou um tempo para a adaptação mas, hoje, “no hay drama”. Disse também que até hoje não passou por nenhuma situação inconveniente por ser gay, em seu país. Ele e Dario pretendem oficializar a união e adotar um filho, no futuro.

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O casal Martín e Dario

 

Gay Friendly pra quem?

O sociólogo Caio Varela, brasileiro e homossexual, vive em Buenos Aires há aproximadamente seis meses. Ele conta que quando chegou à cidade, saía para baladas gays todos os finais de semana, mas só encontrava meninos bonitos e brancos. Achava estranho, já que pelas ruas via sempre meninos morenos, com traços indígenas. “Até que um dia eu fui em uma balada aqui no centro e achei uma em que só vão os meninos pobres, de origem boliviana, peruana e paraguaia”, conta.

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Caio Varela

De acordo com Caio, esses grupos são os mais discriminados na cidade. “Eles são chamados de ‘negros de mierda’. Os bolivianos são chamados pejorativamente de ‘bolitas’, os peruanos de ‘perucas’ e os paraguaios de ‘paráguas’. ‘Parágua de mierda’. Essa coisa horrorosa que em São Paulo e Rio falam ‘Paraíba’”, disse. E quando são gays, são chamados de “puto negro de mierda”, completou.

De acordo com o sociólogo, esses meninos vão a Buenos Aires viver sua homossexualidade de uma forma mais tranquila, mas quando chegam à cidade se deparam com uma outra realidade, não exatamente “gay friendly”.

Apesar disso, Caio diz que, como cidadão, se sente outra pessoa por poder se expressar com mais liberdade, mas que o fato de ser brasileiro e branco contribui para isso.

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