Gonçalo Cadilhe:
"a rotina é uma espécie de ansiolítico que nos apaga a curiosidade"

Gonçalo Cadilhe: “a rotina é uma espécie de ansiolítico que nos apaga a curiosidade”

Gonçalo Cadilhe nasceu na cidade portuguesa de Figueira da Foz em 1968, onde cresceu e que vive até hoje. Licenciou-se em Gestão de Empresas pela Universidade Católica do Porto em 1992, mas sempre teve o gosto pela escrita. Em seu terceiro ano de faculdade, venceu um concurso literário e gastou o dinheiro do prêmio em uma viagem.

A partir daí, viajava, escrevia sobre suas viagens e as vendia para a imprensa portuguesa: “então, assim que terminei minha licenciatura, eu paralelamente já tinha uma porta aberta em uma possível carreira em Jornalismo de Viagens. Era uma coisa muito esporádica e também em Portugal não existia essa profissão, portanto para mim era uma incógnita essa eventualidade de viver da escrita e do Jornalismo de Viagens”,

disse.


Espírito Livre Trips:
Como foi que começou a trabalhar com o Jornalismo de Viagens?Confira abaixo a entrevista completa que o Viajar Com Outro Olhar fez com Gonçalo Cadilhe:

GC: Assim que eu terminei minha licenciatura eu fui convidado para exercer gestão de empresas em uma grande companhia portuguesa de vinhos. Durante sete meses eu aceitei o desafio e trabalhei efetivamente no marketing. Mas um bichinho dentro de mim estava a roer, roer…pensava se eu não estava perdendo uma oportunidade única em minha vida que não voltaria a repetir, de tentar ser esse jornalista de turismo e de viagens. Assim, ao fim desses sete meses, eu pedi minha demissão da companhia e saí do país a viajar chegando onde hoje eu estou.

Trips: Aí você começou a viajar de forma independente ou já tinha parceria com alguma revista do gênero?

GC: Não, eu não tinha nenhuma parceria. Eu comecei a viajar tentando aumentar meu portfólio de clientes. Em Portugal, na altura, não existia nenhuma revista dedicada a viagens, mas várias revistas publicavam seções de viagens, e o que eu tentei e fiz nos anos seguintes foi diversificar os temas das minhas viagens de maneira a colocar meus trabalhos no maior número de revistas possíveis. Alguns exemplos, eu publicava nos principais jornais portugueses reportagens sobre hotéis pluviais, hotéis de charme, sobre regiões vinícolas, turismo vinícola, sobre o surf, reportagens genéricas de viagens, dentre outras. Assim, nos primeiros anos eu fui criando uma rede de clientes, onde da mesma viagem eu conseguia publicar em diferentes meios de comunicação.

Trips: Para você, qual a diferença entre o Jornalismo de Viagens e o de Turismo?

GC: Bom, a única diferença que eu posso entender é que o Jornalismo de Viagens dá mais liberdade para a experiência própria. No início da minha carreira eu era um nobre desconhecido em Portugal, então a minha experiência não despertava a curiosidade do leitor. No início eu me preocupei mais com o Jornalismo de Turismo, ou seja, descrições bem factuais dos destinos e lugares, estabelecimentos, hotéis de luxo. Minha experiência pessoal não era importante.

Isso vai alterar-se radicalmente em 2002 quando eu comecei a publicar semanalmente no Jornal Expresso, um jornal de referência de qualidade em Portugal, um diário de experiências pessoais em minha tentativa de dar uma volta ao mundo sem pegar avião. Essa viagem, inicialmente, eu tinha previsto que duraria oito meses, mas é claro que não havia nada planejado.  Eu estava seguindo a sorte e os conhecimentos, e a viagem acabou por durar dezenove meses. Em oitenta e cinco semanas eu tinha três páginas fixas reservadas para mim no principal jornal português.

Esse projeto de dar a volta ao mundo sem aviões e, publicar na própria semana toda a minha experiência no Jornal Expresso, por e-mail, permitiu minha liberdade para escrever, publicar Jornalismo de Viagens e me preocupar essencialmente com minhas emoções, experiências, minhas leituras do mundo e já não notícias factuais sobre o mundo através de minhas experiências.

Trips: O que te faz querer viajar, conhecer outros países e culturas?

GC: hoje depois de 20 anos de carreira, o que me faz viajar é um projeto cultural, histórico, um projeto que foi apresentado aos financiadores e tem que ser levado até o fim. Então eu posso dizer que o que me faz viajar é cumprir o profissional, é querer fazer o meu trabalho bem feito. Há dois anos, foram comemorados os 500 anos da chegada dos portugueses às ilhas das especiarias, que na idade média era o grande mistério da Europa, onde se produziam as especiarias que eram as coisas mais caras e cobiçadas. Então eu vi nessas comemorações uma boa oportunidade para uma boa viagem, para um documentário, uma serie de reportagens, um possível livro.

A razão de viajar é fazer um trabalho bem feito. Se você me perguntasse há quinze anos, em minha resposta iria usar as palavras como aventura, curiosidade, necessidade de comparar culturas, conhecer novas civilizações. Hoje em dia, posso pensar em um itinerário, em um projeto e um conceito bem pensado. Então eu diria que o que me faz viajar é uma estrutura conceitual da viagem para o meu leitor, que seja um trabalho com pés e cabeça, um trabalho inteligente.

Trips: As viagens te dão aprendizados pessoais?

GC: Claro que sim. Eu acho que o bom viajante é o viajante que parte com humildade, humildade de reconhecer a sua cultura, religião, comida, língua, todos os fatores da sua identidade. No caso de Portugal que é um país com uma história muito antiga, sua identidade nacional é muito forte, reconhecer que todos esses fatores são tão bons e tão maus quanto qualquer outra identidade, qualquer outro fator que eu encontre quando eu estiver viajando.  Então essa espécie de humildade do viajante, é a principal característica que faz que cada viagem seja uma nova aprendizagem, seja sempre um motivo para crescermos individualmente e como povo em sua identidade nacional.

Trips: Há uma viagem que você considere a melhor viagem que você fez, e a pior?

GC: Pior, eu acho que não. A viagem que eu penso que foi o meu feito mais extraordinário, o projeto que eu pensava ser o mais difícil e acabou sendo o mais bem sucedido, foi a travessia do continente africano desde o extremo sul, do Cabo da Boa Esperança até o extremo Norte que é a cidade de Tanger, no Marrocos, para voltar a Europa. Essa travessia da África a pé, em ônibus, em comboio, sem usar o avião, em termos de dificuldade, capacidade do viajante de se arriscar, eu penso que foi o meu trajeto mais extraordinário.

Trips: Quais são as maiores dificuldades e vantagens dessa profissão ?

GC: As vantagens são fáceis, a não ser que você tem aquela doença chamada de Agorafobia, que é o pavor que uma pessoa tem de sair do lugar que conhece. Mas eu felizmente, não tenho esse problema, pelo contrário. A vantagem é que nós estamos sempre conhecendo lugares novos e estamos sempre aprendendo com a imprevisibilidade do dia-a-dia, porque não tem nada pior para o nosso desenvolvimento pessoal do que a rotina. A rotina é uma espécie de ansiolítico que nos apaga a curiosidade.

O que eu considero mais difícil nessa profissão é regressar com o trabalho bem feito, porque quando estamos viajando há tanta coisa que está acontecendo, que está nos distraindo, que está pedindo para nós irmos conhecer. O que fica difícil mesmo é não nos afastar dos rumos que traçamos e continuar com regras e disciplina para fazermos nosso trabalho.  É muito fácil acontecer qualquer coisa que nos apetece dizer sim, eu vou. Mas com isso, nos afastamos dessa disciplina e provavelmente vamos perder a qualidade do nosso trabalho. Basta pensar que quando eu tenho obrigação de enviar o meu trabalho para a revista, é tão fácil em uma viagem começarmos a sentir aquela preguiça, aquela vontade de relaxar, e quando nos damos conta já está no prazo de enviar o trabalho e ainda não foi feito. Por isso, manter a disciplina em viagem, manter a cabeça fria e só seguir aquilo que é o tema do nosso trabalho, seja o mais difícil na profissão.

Trips: Você já passou algum “aperto” em alguma viagem, alguma coisa muito difícil, bem inusitada?

GC: Eu passei por vários, e eles estão descritos com cuidado nas páginas dos meus livros. É difícil para eu resumir rapidamente tantos desses, mas vou apenas explicar um que traz sempre um sorriso quando o descrevo em público. Nas Ilhas das Especiarias, eu fui convidado para um casamento e eu era o único europeu presente. Então como eu era o único europeu, eu tive a honra de iniciar o banquete. E o prato principal era cachorro! E na nossa cultura comer cão é muito complicado.  O casamento não ia começar enquanto eu não desse a primeira garfada, então eu tive que experimentar o cachorro, coisa que até hoje me causa muita pena.

Trips: E era gostoso?

GC: Tinha tanta malagueta que eu nem recordo o gosto, eu só recordo as minhas lágrimas de não ver uma cerveja, porque era uma cultura mulçumana (risos). Estou brincando com a dificuldade, não é isso que é uma coisa difícil. No Afeganistão eu quase pisei em uma mina anti-homem, essa história está escrita no livro Planisfério Pessoal, por sorte não aconteceu e não estaríamos aqui se tivesse acontecido.

Trips: Você acha que o mercado de trabalho carece desse tipo de jornalismo?

GC: é tão fácil viajar hoje em dia que qualquer pessoa pode sonhar com a sua viagem, e então, nesse sentido, eu penso que cada vez mais o Jornalismo de Viagens vai estar presente na imprensa de qualquer país. O que eu quero dizer com isso é que há trinta ou quarenta anos atrás as pessoas não pensavam ser possível também elas viajarem. Viajar era mais para quem tinha dinheiro, uma situação confortável, uma vida confortável, hoje em dia qualquer pessoa pode viajar. Um exemplo: algumas décadas atrás, ninguém colocava em um currículo a experiência de ter viajado. Hoje em dia, o jovem na Europa, nos Estados unidos, na Austrália, o jovem que termina sua universidade e vai procurar emprego, sem antes ter viajado, não é considerado um bom candidato, é considerado alguém com pouca experiência de vida, de mundo.

Nesse sentido o jornalismo de viagens será sempre cada vez mais procurado, mais importante na imprensa de um país. Claro que a imprensa tradicional está sofrendo muitas transformações, mas na imprensa digital, novas funções estão a aparecer, o que é importante. É ao mesmo tempo um jornalismo verdadeiro e interessante que traz coisas novas ao leitor, não importa se é no papel escrito, na plataforma digital, se é através das novas funções.

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