Paraguaios na Festa das Nações

Xenofobia: o dia em que quase fui presa em Buenos Aires

“Mãos na parede! Na parede! Agora, as duas!”, gritava um homem para mim e minha amiga. Estávamos na estação 9 de Julio esperando o metrô para ir para casa. Era por volta das 18 horas, horário de pico, e a estação estava muito cheia, como era de se esperar. Resolvemos aguardar o próximo trem, já que o primeiro que havia passado estava superlotado. Quando o próximo veio e já estávamos com um pé dentro do vagão, o homem começou a nos puxar,gritando as palavras acima.

Obedecemos sem entender e saber o que nos esperava. Achei que íamos ser roubadas. Tínhamos saído para conhecer a cidade. Eu estava com minha câmera profissional em uma case pendurada ao pescoço, uma bolsa grande com algumas coisas que havia comprado naquele dia, documentos e dinheiro. O que mais poderia ser? Vão nos roubar, pensei.

Ao nosso lado, também com as mãos na parede, havia um homem de média estatura, cabelo liso e negro, e traços indígenas. Nosso medo só aumentava e todos da estação nos olhavam como se fôssemos três perigosos criminosos. O homem que gritava para nós surgiu com mais dois ao seu lado e todos se identificaram como policiais, apesar de não estarem uniformizados. Tiraram dos bolsos suas carteiras e se identificaram.

O policial que nos abordou mandou que entregássemos nossos documentos e também pediu para que abríssemos nossas bolsas. Mostrei tudo que tinha e, já nervosa, perguntava o que estava acontecendo, dizia a todo momento que éramos turistas e ele dizia que isso não importava.

Seu companheiro saiu com nossos documentos e depois de um tempo voltou, devolvendo-os. Nessa hora, o homem que gritava nos chamou, eu minha amiga e ao homem desconhecido com traços indígenas. Nos disse que estava tudo bem. Como assim, tudo bem? Por que fizeram tudo aquilo? O que estava acontecendo?

De acordo com o policial, ele estava à paisana nos observando de longe e desconfiou quando eu e minha amiga não entramos no primeiro metrô que passou. Justificou dizendo que tenho o rosto mestiço, “cara de colombiana”, e que muitas colombianas se vestem bem, se passam por turistas e vão aos metrôs para furtarem os passageiros. Por isso, também abordou o outro homem com “rosto mestiço” e pensou que estávamos juntos no plano.

Mal dava para acreditar. A abordagem me pareceu muito exagerada e de fato foi. Foram 30 minutos de agonia, desespero, pavor. Pela primeira vez senti na pele o que é alguém te julgar pelo seu “rosto mestiço” sem provas, nem evidências concretas de nada. Apenas pelo seu rosto. Uma clara demonstração de xenofobia vinda da própria polícia.

Quando soube que éramos brasileiras, o tal policial abriu um sorriso, desconversou, disse que era aquela abordagem mesmo que eles faziam e que, para se desculpar, poderia nos mostrar a cidade.

Depois desse episódio, conversando com amigos brasileiros que vivem lá e, contando o que nos havia acontecido, vários disseram já terem ouvido declarações xenófobas e preconceituosas dos porteños  – como são chamados os argentinos de Buenos Aires. Bolivianos e peruanos são os que mais sofrem com tal atitude, mas paraguaios e colombianos também não escapam.

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O caso Marcelina Meneses

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Marcelina e seu filho Josuá

Um dos casos mais cruéis de xenofobia aconteceu no dia 10 de janeiro de 2001. A boliviana Marcelina Meneses carregava Josuá Torres, seu bebê de 10 meses, nas costas, para ir a uma consulta médica na cidade de Avellaneda, na grande Buenos Aires. Tomaram um trem, e além do bebê, Marcelina carregava também sacolas.  Ao se levantar para ficar próxima à porta do desembarque, esbarrou sem querer no ombro de um homem, que de acordo com a testemunha Julio César Giménez, gritou: “Boliviana de merda! Não olha por onde anda!”.

Gimenez interviu nesse momento dizendo para o homem ter cuidado, afinal se tratava de uma mulher com um bebê. Nessa hora um terceiro homem disse: “por que você defende, se esses bolivianos são os que vêm tomar nosso trabalho? Igual fazem os paraguaios e os peruanos”. Gimenez então respondeu que isso é o que pregam os políticos e que “somos todos latinoamericanos”. Gimenez alegou que outras pessoas disseram em seguida: “O que você é? Antipátria?”.

A discussão não parou e mais gente se juntou para humilhar Marcelina e os bolivianos. O desfecho não poderia ter sido pior. Quando a porta se abriu para o desembarque, Marcelina e seu bebê foram empurrados do trem e morreram na hora.

Você encontra mais informações sobre o caso aqui.

Causas

O InstitutoNacional contra a Discriminação, a Xenofobia e o Racismo (Inadi), da Argentina, coletou em 2013, 14,8 mil casos sobre discriminação, xenofobia e racismo, em uma pesquisa realizada em todo país através do trabalho coordenado com 27 universidades nacionais.

De acordo com o Inadi, os principais grupos que ainda são vítimas de práticas racistas no país são os povos indígenas, os afrodescendentes e africanos, a população de países limítrofes, asiáticos, comunidade judia e muçulmana, entre outros.

Alguns exemplos dos discursos racistas em relação a esses grupos são:

  • “Eles não têm cultura”, em relação aos povos indígenas
  • “Na Argentina, não há negros”, em relação aos afrodescendentes
  • “Eles vêm tirar nossos empregos”, em relação à população de países limítrofes e asiáticos
  • “São todos desocupados, não querem trabalhar”, expressão usada para os povos indígenas e pessoas em situação de pobreza.

As principais imigrações na Argentina no final do século 19 e início do século 20 foram de italianos e espanhóis. Nos anos 90, de acordo com a Direção Nacional de Migração da Argentina, a maior imigração partiu da Bolívia, do Paraguay e Peru. Os brasileiros são minoria no grupo.

Alguns especialistas dizem que a razão pela qual os argentinos, mais precisamente os porteños, são  tão xenófobos se deve ao fato de se considerarem mais “europeus” que o resto da América Latina. De fato, a colonização e imigração europeias fizeram com que o estereótipo argentino seja de pessoas brancas, traços finos e de sobrenomes estrangeiros, e por isso, parte da população que se considera superior, rejeita negros, indígenas e orientais que migram para seu país. Outra causa, seria a crise econômica pela qual o país vem passando. Como o índice de desemprego alto, os imigrantes acabam levando a culpa da desocupação de milhares de argentinos. Os brasileiros, talvez por não oferecerem esse perigo, não são rejeitados.

É claro que a xenofobia não é problema exclusivo da Argentina, mas é claramente mais perceptível e cruel atos xenófobos no país. Uma dura realidade que precisa ser mudada para que outras pessoas não sejam menosprezadas pelo rosto que têm.

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